Casa das Pedras

Lourinhã, 2026

Casa das Pedras

Casa das Pedras

Localização: Reguengo Grande – Lourinhã

Programa: Habitação / Reabilitação

Tipologia: Moradia unifamiliar T2

Área: 160,00m2

Ano: 2026

Estado: Construído

Arquitetura: Cidade Branco Arquitectos

Construção: Solid Stones

Fotografias: David Pereira

A Casa das Pedras nasce da reabilitação de uma pré-existência composta por três volumes, já bastante degradados, mas de grande interesse arquitetónico, sobretudo pela forma como se implantavam no terreno. Encontrámos três corpos encastrados nas pedras de um lote de declive acentuado e marcado pela presença expressiva da rocha calcária característica da zona.

O projeto assenta nos princípios de uma arquitetura humanista e sustentável, colocando em primeiro lugar o conforto de quem habita a casa. O respeito pelo existente cruza-se com escolhas construtivas responsáveis, orientando os acabamentos, os materiais e as práticas de obra.

O resultado é uma casa confortável, marcada pelos tons naturais da pedra, da madeira e das massas de acabamento natural. A relação com a paisagem envolvente é reforçada através da abertura de novos vãos e da simplificação dos existentes, permitindo uma maior área de vidro e uma ligação mais direta entre interior e exterior.

Casa das Pedras

Os espaços articulam-se entre si e abrem-se à envolvente a partir de diferentes pontos de vista. A escala da casa é redefinida através de espaços mais abertos, mas ainda assim acolhedores, onde as texturas e os tons naturais criam uma atmosfera que envolve e abraça quem a habita.

Casa das Pedras

O volume principal, onde originalmente se desenvolvia a habitação, apresentava uma organização muito compartimentada e era caracterizado por paredes de alvenaria de pedra aparelhada, com cerca de 50 cm de espessura. Os outros dois volumes, de construção mais precária, funcionavam como anexos de apoio à habitação. Sendo evidente que o volume em pedra corresponde à construção original, foi neste que se localizaram os principais espaços sociais da casa: a cozinha, a sala de refeições e a sala de estar. A estratégia de intervenção passou pela simplificação da planta, transformando-a num espaço amplo e contínuo, onde as áreas de estar e de refeições coexistem. A cozinha é implantada num patamar ligeiramente elevado, mantendo uma forte relação visual e funcional com os restantes espaços através da abertura de um amplo vão na parede que anteriormente os separava. Ainda neste volume integram-se uma lavandaria/dispensa de apoio à cozinha, um quarto e uma instalação sanitária, ambos com vãos orientados para um pátio exterior. No volume central, que estabelece a ligação entre os outros dois corpos, foi criada uma sala de ócio destinada à contemplação da paisagem. Este espaço é marcado por um generoso vão horizontal, que enquadra a vista e reforça a relação com a linha do horizonte. Por fim, o terceiro volume acolhe a suite. O quarto estabelece uma relação direta com um pátio privado, criado a partir da demolição de um antigo telheiro de construção precária. Esta operação permitiu libertar espaço entre o edifício e o terreno, originando um pátio exterior que garante privacidade em relação à rua e às construções vizinhas, ao mesmo tempo que reforça a ligação entre a habitação e o espaço exterior.

Casa das Pedras

O acesso à habitação faz-se através de uma sequência de plataformas que vencem naturalmente o declive do terreno. Esta solução procura respeitar a topografia existente, recorrendo às próprias pedras do local para construir os diferentes patamares e degraus, criando um percurso de aproximação cuidado e cénico, que prepara a chegada à casa.

A pedra assume-se como o elemento protagonista da intervenção, definindo a identidade da habitação. Originalmente oculta por sucessivas camadas de reboco, é revelada pelo projeto, expondo a sua estereotomia, textura e tonalidade natural. A sua presença confere carácter aos espaços, reforçando a autenticidade da construção e proporcionando uma atmosfera de conforto e permanência.

Casa das Pedras

A seleção dos materiais e das técnicas construtivas assenta em princípios de sustentabilidade e de economia circular, privilegiando soluções de reduzida energia incorporada e o reaproveitamento de recursos. Optou-se pela utilização de materiais artesanais e naturais, como pavimentos e carpintarias em madeira maciça, tijoleira cerâmica nas instalações sanitárias e revestimentos de paredes executados em obra com argamassa à base de cal e areia. Os revestimentos cerâmicos recorrem a azulejos artesanais pintados à mão de segunda escolha, cujas pequenas imperfeições não comprometem a sua qualidade, mas conferem singularidade às peças e constituem uma forma de reduzir o desperdício. A pedra resultante das demolições foi integralmente reutilizada na construção de degraus, muros e patamares exteriores, preservando a continuidade material da intervenção. Foram igualmente integrados diversos elementos recuperados e reabilitados, prolongando o seu ciclo de vida. Destacam-se a porta principal em madeira, adquirida em segunda mão, e antigas solipas de madeira, reutilizadas como vigas e como degraus no vão que estabelece a ligação entre a cozinha e os espaços de estar e de refeições. Estas opções reforçam a identidade da casa e traduzem uma abordagem consciente à utilização dos recursos, conciliando memória, sustentabilidade e qualidade arquitetónica.

Casa das Pedras

O projeto procura, acima de tudo, respeitar e valorizar o material que caracteriza o lugar: a pedra calcária. A intervenção estabelece um diálogo permanente com este elemento, reconhecendo-o como parte integrante da identidade da arquitetura e da paisagem. O trabalho desenvolvido sobre a pedra só foi possível graças ao conhecimento e à experiência de artesãos locais, cuja mestria permitiu intervir com sensibilidade e precisão, preservando a autenticidade do material e evidenciando as suas qualidades naturais. O saber-fazer destes profissionais revelou-se fundamental para alcançar o resultado pretendido, reforçando a importância dos ofícios tradicionais na concretização de uma arquitetura enraizada no território.

 

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